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XAMANISMO: a viagem ao Mundo
Profundo
Tambores na noite
O som do tambor é monótono
e constante. O fogo crepita na escuridão, iluminando furtivamente
os vultos deitados, o antebraço sobre os olhos, como que profundamente
adormecidos. São xamãs, e estão em transe. O tambor
para subitamente e aquele que está tocando repete em voz suave:
“Vamos voltando, vamos voltando, vamos voltando...” Mais alguns toques,
e o silêncio. Os vultos espreguiçam-se, mexem-se, abrem os
olhos e saem da viagem xamânica ainda com restos de paisagens misteriosas
refletindo-se em seus olhos.
O curioso é que não
estamos nas selvas africanas, nem nas estepes da Sibéria, muito
menos num recôndito canyon americano. Quando a luz se acende, o que
vemos é uma varanda numa casa de classe média, em uma grande
cidade brasileira. Móveis modernos, quadros nas paredes, plantas
nos vasos. Uma casa comum, igual a qualquer outra. E os xamãs são
pessoas comuns. Funcionários públicos, psicólogos,
artistas, médicos, donas de casa, estudantes, terapeutas das mais
variadas linhas. Vestem jeans, camisetas, roupas comuns. Aquele que toca
o tambor, e que conduz a reunião, convida agora os participantes
a compartilharem a sua experiência com os demais. E à medida
que vão falando, vivências vão sendo analisadas, conteúdos
psíquicos vão sendo integrados e todos se beneficiam de uma
prática que, apesar de inusitada, é um excelente caminho
para o autoconhecimento e a cura.
Mas o que vem a ser o xamanismo?
O que é o xamã?
O herói da consciência
A palavra xamã significa,
no dialeto dos povos Tungus da Sibéria, homem inspirado pelos espíritos.
Foi adotada pelos antropólogos para denominar pessoas que desempenham
funções específicas dentro de uma grande variedade
de culturas pré-tecnológicas.
O xamã existe em praticamente
todas as tribos. Pode ser um homem ou uma mulher. Mas não é
um sacerdote como outro qualquer. É um sacerdote que tem a possibilidade
de acessar o Mundo Profundo, entrando em contato com os espíritos
animais, que são energias primitivas e telúricas que todos
temos dentro de nós. Através do contato com essas energias,
o xamã adquire conhecimento e poder e, com isso, a possibilidade
de ajudar as outras pessoas.
Distingue-se dos outros tipos de
sacerdotes ou curandeiros porque atua sempre em estado ampliado de consciência,
no qual realiza seu vôo mágico, sua jornada ao Mundo Profundo,
sua viagem xamânica. O xamã domina técnicas específicas
para alcançar esse êxtase, durante o qual trabalha para curar
um paciente restaurando o poder benéfico ou vital, ou extraindo
o poder nocivo. Quando o indivíduo está desanimado, o xamã
traz para o indivíduo a anima ou a alma, aqui simbolizada pelo seu
espírito animal. O xamã é, assim, um verdadeiro herói
da consciência.
A viagem
A primeira experiência xamânica
é a viagem ao mundo profundo. Essa viagem é feita pelo xamã
em um tipo de estado ampliado de consciência denominado Estado Xamânico
de Consciência. Para isso, é necessário o toque do
tambor.
O tambor é o cavalo do xamã.
A sua frequência aciona determinados gatilhos neurológicos
no nosso cérebro que induzem o Estado Xamânico de Consciência.
Não é somente o tambor que faz isso. Determinadas plantas
ou bebidas rituais podem induzir esse mesmo estado, atuando como um portal.
A vantagem do tambor é que o seu toque faz isso de forma segura,
com o indivíduo plenamente desperto, consciente da realidade que
o cerca e com perfeito domínio do que se passa ao seu redor.
Para fazer a viagem, é preciso
sossego e escuridão. Ao se iniciar o toque do tambor, a pessoa deve
imaginar um campo, uma floresta, um lugar conhecido. Nesse lugar, deve
imaginar uma árvore, uma pedra, um buraco. Depois, é preciso
entrar pela árvore, ou por trás da pedra, atravessando um
túnel que desemboca no Mundo Profundo. Esse mundo é tão
rico e variado quanto a mente de cada um. Dali, o xamã viaja para
onde desejar, num espaço sem direção, num tempo sem
duração.
No Mundo Profundo, o xamã
encontra objetos que o auxiliam na cura dos males, seus ou do seu povo.
Encontra espíritos, respostas, visões. Conhece seu Mestre
interno, e recebe, num batismo mágico, seu nome secreto e impronunciável.
Neste mundo, trabalha-se com a imaginação, que sempre está
a nosso serviço.
A dimensão do Estado Xamânico
de Consciência é tão real quanto a realidade física
que nos cerca, e o seu acesso somente é negado àqueles que
não conseguem se desprender do racionalismo, da desconfiança
e da resistência a novas experiências. A viagem não
se faz com esforço, mas com anti-esforço. Não há
perigo. A qualquer sensação de temor, é bastante que
se abra os olhos.
Espíritos guardiões
Quando nos habilitamos a ir ao Mundo
Profundo, começamos a entrar em contato com os espíritos
guardiões, ou espíritos animais.
Ali, podemos voar sobre os altos
cumes, com a Águia, ou nadar nas profundezas dos mares com o Golfinho,
ou ao lado da majestosa Baleia. Podemos ainda correr velozmente pela verde
e brilhante floresta acompanhados do Jaguar, da Onça ou da Pantera,
investigar os altos galhos das árvores com o Urso, caçar
nas matilhas com o Lobo, penetrar nas profundezas da terra com o encouraçado
Tatu, deitarmo-nos preguiçosamente na relva ao lado do Leão,
ou ficarmos quietos, estendidos ao sol, na companhia do enorme e terrível
Jacaré.
Cada pessoa tem o seu espírito
animal. Segundo a psicóloga e xamã Carminha Levy, “os animais
são nossas entidades guias, parceiros da Criação.
Nos mitos ameríndios, nos doaram o fogo, os instrumentos musicais,
ferramentas e armas. Estão sempre no interior de cada ser humano,
agindo sem que este o saiba, e sua herança nos pertence. O animal
é, na Sibéria, o Espírito Tutelar ou Protetor, no
México e Guatemala é o Nagual, na Austrália o Aliado
Totem; ele é o companheiro de estrada daquele que age em plena consciência.
Como um fiel escudeiro, ele dá ao xamã a energia vital, a
força e a sabedoria.”
O xamanismo moderno
Na época atual, a possibilidade
de entrar no Estado Xamânico de Consciência já está
sendo usada em consultórios por psicólogos e terapeutas,
como técnica excelente para conduzir os seus clientes ao caminho
da cura. É simples, fácil e funciona. E talvez seja esta
a saída para a resolução dos problemas mais cruciais
que enfrentamos no mundo de hoje: a fusão do arcaico com o moderno.
Quem iniciou a divulgação
sistemática do xamanismo como prática de cura no mundo moderno,
no início da década de 60, foi o antropólogo norte-americano
Michael Harner, iniciado como xamã na América do Sul por
um índio jivaro.
Hoje, passados 35 anos, esses novos
“xamãs urbanos” vêm disseminando essas práticas, trabalhando
para o seu autoconhecimento e para a cura dos seus semelhantes, além
de desenvolverem um trabalho de conscientização ecológica
e de cura da Mãe-Terra.
No Brasil, um dos nomes mais importantes
do xamanismo é o de Carminha Levy. Pernambucana radicada em São
Paulo, é psicóloga com especialização em Jung
pela PUC-SP, pedagoga, e arte-terapeuta transpessoal. Estudou psicologia
transpessoal com Stanislav Gröf, no Esalen Institute, onde iniciou-se
no xamanismo com Michael Harner. É fundadora e presidente da Paz
Géia Instituto de Pesquisas Xamânicas (São Paulo),
primeiro centro de estudos do gênero no país. Há 15
anos que Carminha Levy tem guiado cursos e jornadas xamãnicas em
todo o Brasil e nos EUA.
O trabalho desta eminente psicóloga
e xamã tem como finalidade promover a cura da Mãe-Terra,
a revalorização de culturas indígenas e a preservação
do ecossistema. Sua contribuição a esse esforço filia-se
ao xamanismo matriarcal, ao culto da Grande Deusa, a Mãe-Terra,
a Madona Negra, cujos atributos são a Compaixão, a Misericórdia,
a Justiça, a Liberdade, a Colaboração, a Alegria e
a Concórdia.
O endereço da Paz Géia
- Instituto de Pesquisas Xamânicas é: Rua Prof. João
Britto, 116
CEP 04535-080 - São Paulo
- SP
Fone (011) 822-4992 - Fax: (011)
820-0335.
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