O RETORNO DA DEUSA: resgatando a energia feminina  
 

Quem é essa Deusa que, a acreditar no título deste artigo, está retornando? E que energia feminina é essa, e o que tem de tão especial? E a principal questão: como nos equilibrarmos, homens e mulheres, no seio dessa dualidade masculino/feminino, síntese e reflexo da própria vida? Contribuir para o esclarecimento dessas questões e, sobretudo, refletir sobre elas, é o objetivo deste artigo. Vamos então iniciar esta reflexão registrando mentalmente as imagens evocadas pelo palavra feminina. 

Musa inspiradora ou megera indomada? 
Geralmente, as qualidades que povoam nossa mente quando falamos em feminina são indefesa, frágil, gentil, modesta, pequenina, graciosa, carinhosa, sofisticada, dependente, delicada, quieta, tímida, fraca, dócil, sem personalidade, paciente, de fala macia, que sabe ficar no seu lugar, infantil, receptiva, carente de proteção. Evocamos a musa que inspira o escritor ou o músico, e nunca a própria mulher como escritora e compositora. Imaginamos opiniões expressas em voz baixa, hesitante, ou no silêncio, e nunca na voz confiante de quem sabe o que diz. Nos lembramos de tecidos finos e vaporosos, laços de fita, saias, e flores. A mulher imaginada é etérea e se move com leveza graciosa, mal tocando o chão com seus pezinhos delicados. (1) 

Com os olhos da imaginação podemos também imaginar outros personagens. Imaginemos Alzira, 35 anos, seis filhos menores de dez anos, faxineira, casada com operário da construção civil; Elisa, 20 anos, comerciária, arrimo de família, trabalhando catorze horas por dia em dois empregos; Lúcia, 40 anos, cirurgiã e dona de hospital, quatro filhos, casada com empresário; Renata, 15 anos, 1,80m, campeã juvenil de atletismo, tênis número 40. E nos lembremos de figuras públicas e conhecidas de todos nós, como a atriz Fernanda Montenegro, a senadora Benedita da Silva, a diretora de cinema e TV Tizuka Yamasaki, a Madre Tereza de Calcutá e, por que não dizer, as mulheres prefeitas das duas maiores cidades do Rio Grande do Norte: Wilma de Faria e Rosalba Ciarlini. Finalmente, imaginemos a cada uma de nós com o ventre inchado, suando e chorando no trabalho de parto. 

Qual autor descreveria uma dessas mulheres como feminina? Vivemos numa eterna luta para nos encaixar no estereótipo de uma mulher idealizada que não sobreviveria um dia sequer à nossa rotina diária de trabalho, sejamos médicas ou faxineiras, empresárias ou professoras primárias. Temos desperdiçado tempo e energia procurando nos enquadrar nesses padrões e frequentemente nos sentimos tão inadequadas como as irmãs de Cinderela, nos sacrificando para calçar o sapatinho de cristal, culpando-nos por não sermos suficientemente “femininas” e assim nos sentimos péssimas. 

Passamos então de musas etéreas a megeras indomadas e indomáveis, e os adjetivos que nos dão se transformam: neurótica, estridente, histérica, ilógica, irracional, dominadora, castradora, chata, difícil, sem-vergonha, velhota, perua, dragão, mocréia, sapatão, piranha, autocentrada, egoísta, metida a besta, ambiciosa demais, frígida, emocional demais, temperamental, idiota... e por aí vai. 

Mas afinal, quem somos? Onde ficou perdida a nossa identidade? Vamos procurá-la no passado, porque é necessário voltar ao passado para compreender o presente e projetar melhor o nosso futuro. 

A Idade do Ouro 
A maioria dos historiadores antigos como, por exemplo, Platão na Antiga Grécia, se referem a uma Idade do Ouro pela qual teria passado a Humanidade muitos séculos antes da Tróia de Homero. Por muito tempo tomada apenas como imagem mítica, essa Idade do Ouro tem tido ultimamente comprovada sua existência por achados arqueológicos e interpretações antropológicas desses achados. (2) 

Há cerca de 100 séculos antes de Cristo, ou seja, 10.000 anos, os seres humanos se organizavam em sociedades centradas na figura da mulher, cujas características principais eram a ausência de fortificações militares e de armas, - as que existiam eram pequenas e usadas somente para defesa - a ausência de guerras organizadas e de estrutura política burocrática. Nessas sociedades, as famílias eram extensas, semelhantes a clãs, governadas por mães e não havia escravos. Os laços de sangue, linhagem, parentesco e direito de propriedade eram transmitidos através das mães. 

Essa sociedades centradas na mulher eram pacíficas, condescendentes, mantenedoras da vida, baseadas na confiança; nelas, o comportamento violento e destrutivo era desencorajado. (3) Foram as mulheres dessas sociedades que inventaram a agricultura, a cestaria, a cerâmica, a olaria, a metalurgia, as técnicas de processamento, armazenagem e preservação de víveres; eram ainda as guardiãs do fogo, as ervanárias e farmacologistas e as curandeiras oficiais e primeiras médicas. A atividade masculina se restringia à caça, cuja base é a imitação e observação silenciosas. Por isso, foram provavelmente as mulheres que inventaram a linguagem, propiciando assim terreno para o desenvolvimento e aprimoramento da inteligência. 

Os antropólogos também observaram que nesses tempos remotos, o papel masculino na concepção não era compreendido. Isso somente veio a acontecer em torno dos anos 5.000 a 3.000 antes da Era Cristã. Como a mulher não fica grávida em todo ato sexual, e só vem saber que está grávida depois de dias ou semanas, a conexão entre atividade sexual com machos e concepção não é imediatamente óbvia. Por muitos séculos e séculos o homem, inocentemente, pensou que a mulher engravidasse dos deuses. (3, 4) 

Refletindo a sociedade, os sistemas religiosos primitivos também eram centrados na figura de Deusas-Mãe que simbolizavam a fertilidade do solo, dos animais e dos seres humanos. As divindades femininas presidiam ainda a variadas atividades comuns àquelas sociedades. Como exemplo podemos citar a deusa Asherah, “Senhora da Marcenaria e da Carpintaria” da antiga mitologia da região de Canaã. Com o decorrer dos séculos observou-se a ascenção de uma cultura guerreira, centrada no homem, que progressivamente foi substituindo a sociedade organizada em torno da mulher, da Mãe. 

Deuses masculinos 
Por volta do século 30 a. C., época em que se localiza a Tróia de Homero, os deuses masculinos já haviam assumido o lugar de comando, onde Zeus, o maior dos deuses na mitologia grega, era a divindade mais importante. Mas a Deusa-Mulher original ainda estava viva, nas figuras de Afrodite, sensual e jovem, Deméter, mãe e nutridora, Ártemis, aventureira e livre, Atena, sábia e empreendedora, Hera, esposa e companheira e Perséfone, senhora das coisas ocultas, todas elas faces diversas da mesma manifestação original: a Deusa. 

Durante muito tempo, enquanto as comunidades se reorganizavam em torno de uma cultura patriarcal, centrada no homem e não mais na figura da mulher, outra tradição cultural poderosa surgiu e contribuiu para o estabelecimento de modelos e valores baseados no princípio masculino: a tradição judaico-cristã. No início da Era Cristã, as antigas religiões foram perseguidas e seus rituais eliminados ou absorvidos poela Igreja Católica, como o solstício de verão, que se transformou no São João, o solstício de inverno, que tornou-se o Natal, a festa de São José, que é o equinócio vernal, ligadas a rituais de fertilidade onde a natureza, na figura da Deusa, era reverenciada. 

Enquanto o Cristianismo se estabeleceu e firmou no mundo ocidental, a mulher passou a ocupar cada vez mais secundário na sociedade a ponto de, no século V, Santo Agostinho argumentar que as mulheres não tinham alma, e Graciano, um especialista em direito canônico que viveu no século XII dizer textualmente: “O homem, mas não a mulher, é feito à imagem de Deus. Daí resulta claramente que as mulheres devem estar submetidas a seus maridos e que devem ser como escravas.” Esta tese é corroborada no século XIII por São Tomás de Aquino, que diz: “A mulher é uma escrava pela lei das circunstâncias e está submetida ao homem pela fraqueza do seu espírito e do seu corpo.” No Martelo das Feiticeiras, manual de caça às bruxas escrito pelos frades dominicanos Kraemer e Sprenger, datado do século XV, encontramos a seguinte afirmação: “Quando uma mulher pensa sozinha, ela pensa maldades.” (3) 

A tradição judaico-cristã, baseada em uma divindade e valores identificados com a figura do Pai, com a figura masculina, foi de grande importância na formação cultural do Ocidente e poderíamos citar grande quantidade de afirmações semelhantes que autores e mais autores, ao longo desses dois mil anos, elaboraram sobre as mulheres. A mais arraigada delas é a associação da mulher com o chamado “pecado original”, que a torna responsável pela expulsão da Humanidade do paraíso e fonte e origem de todo o pecado, de todo o mal. 

As culturas da civilização ocidental são como filhos de uma família divorciada. Vivem agora apenas com o Pai, e são proibidas de mencionar o nome da Mãe ou de lembrar aquela época cálida e alegre que viveram nos seus braços. Tendo apenas o pai como orientação e modelo nós, a despeito do seu amor, nos tornamos endurecidos, implacavelmente heróicos e severamente puritanos.(5) 

Qualidades masculinas e femininas 
Ao lado dos estereótipos do “feminino” com o qual fomos obrigados a conviver e que não correspondem em absoluto à realidade do que seja a condição feminina, também o termo masculino nos evoca pensamento e comportamento racionais, sabedoria, pragmatismo, objetividade, capacidade de proteção, heroísmo, orientação para um objetivo, coragem, capacidade para assumir riscos, pensamento linear, criatividade nos mais altos níveis, habilidade com as ciências, com as matemáticas e os raciocínios complexos e habilidade para planejar e organizar em grande escala. (1) 

Ora, com o conhecimento que temos dos homens, sabemos muito bem que este quadro é tão pobre quanto aquele que foi traçado no início a propósito do feminino. A verdade é que todos nós, seres humanos, homens e mulheres, somos muito mais ricos e complexos do que essas descrições estereotipadas podem fazer supor. Jung sugere que as qualidades que uma mulher possui e que não parecem ser tipicamente “femininas”, deveriam ser creditadas ao seu animus, uma espécie de contrapartida masculina dentro dela. Da mesma forma, certas peculiaridades que o homem exibe, como compaixão e necessidade de proteger, são atribuídas à sua anima, a parte feminina que existe dentro dele. Atualmente, muitas mulheres, psicólogas da linha junguiana, já começam a rever esses conceitos de animus e anima, que foram aceitos sem restrições durante tanto tempo. (6) 

Parece que o que corresponde mais à realidade é que temos uma enorme quantidade de características, com as quais podemos construir nossas identidades, tentando toda sorte de associações estimulantes. Somos quem somos e se somos mulheres, nossas características - sejam elas quais forem - são femininas. Quando uma mulher martela um prego numa parede, não é o seu animus quem faz isso. É ela mesma. (1) 

O retorno da Deusa 
Uma maneira recente de compreender essas contradições aparentemente inconciliáveis é o movimento que se convencionou chamar metaforicamente “o retorno da Deusa”. E o que é, ou quem é a Deusa? 

A Deusa é um tipo complexo de personalidade feminina, rica, variada, multiforme, parte da qual é adquirida culturalmente e parte da qual é inata. E todos aqueles que estudaram Jung sabem que quando uma dinâmica psicológica é constatada num grupo de pessoas, temos um arquétipo. A deusa é, portanto, um arquétipo que precisamos fazer emergir das profundezas do inconsciente coletivo para a superfície de cada uma de nós. (5) 

O que precisamos entender é que, sendo a deusa complexa, ela é integradora e sob o influxo de sua energia é que se pode superar a fragmentação e vivenciar a totalidade das coisas. Os seres humanos, banhados pela energia da deusa, podem vivenciar plenamente ambos os polos de dualidades antes consideradas inconciliáveis, como razão/intuição, aparência/essência, lógica/sensibilidade, arte/ciência, acaso/necessidade, pensamento linear/pensamento simbólico. 

É preciso deixar emergir as diferentes faces da deusa, juntas e reunidas. Ser, ao mesmo tempo, Afrodite, sensual e amorosa, bela e protetora das artes; Atena, sábia, civilizada, realizada profissionalmente, dedicada à educação, à justiça, à política, ao intelecto; Perséfone, mediúnica, atraída pelo espiritual, pelas experiências místicas, pelo oculto; Ártemis, prática, atlética, aventureira, solitária, protetora dos animais e da natureza; Hera, rainha do lar, companheira do homem; e Deméter, mãe e nutriz. Apenas um aspecto desses é pouco para nós, e precisamos entender que todas essas deusas são aspectos parciais da Grande Mãe, da qual somos espelho e reprodução viva. 

Quanto aos nossos companheiros, os homens da nossa vida, se são realmente homens de valor, irão sempre preferir uma Deusa ao seu lado e não uma escrava aos seus pés. 

Notas: 
1) STONE, Merlin. Introdução. In: NICHOLSON, Shirley, org. O novo despertar da deusa: o princípio feminino hoje. Rio de Janeiro, Rocco, 1993. 

2) Reivindincando nossa herança da deusa. In. NICHOLSON, Shirley, org. O novo despertar da deusa: o princípio feminino hoje. Rio de Janeiro, Rocco, 1993. 

3) CABOT, Laurie. O poder da bruxa. 5. ed. Rio de Janeiro, Campus, 1994. 

4) MURARO, Rose Marie. A mulher no Terceiro Milênio. Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1992. 

5) WOOLGER, Jennifer Barker; WOOLGER, Roger J. A deusa interior. São Paulo, Cultrix, 1992. 

6) MATTON, Mary Ann; JONES, Jenette. Será o animus obsoleto? In: O novo despertar da deusa: o princípio feminino hoje. Rio de Janeiro, Rocco, 1993. 

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