| SE NÃO
TIVER AMOR, NADA SEREI
.... "A qualidade essencial
de qualquer
sociedade humana
deriva da qualidade
do amor que une
seus homens e mulheres."
DANE RUDHYAR
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"Alguma coisa acontece
quando seres humanos
interagem amorosamente."
AUGUSTO DE FRANCO
A jornada para a transformação
Em todas as tradições espirituais encontramos o mito do caminho, da peregrinação. Os maometanos têm que ir pelo menos uma vez na vida a Meca. Os magos fazem o caminho de São Tiago. Os nordestinos vão ao Juazeiro do meu Padrinho Padre Cícero Romão Batista. A busca, a procura de si mesmo, simbolizada pela peregrinação aos lugares santos, é um momento único na trajetória pessoal do indivíduo em direção à sua espiritualização, à sua libertação. Cada um de nós tem o direito e o dever de transformar-se em um ser divino, mas isso somente pode ser alcançado às custas da própria experiência, nas palavras de H. P. Blavatsky. O início da caminhada
À medida que progredimos no caminho, começamos a descobrir que ele é árduo, mas que não é feito somente de dificuldades. Vislumbramos lugares agradáveis onde repousar os olhos e o coração. E começamos a encontrar companhia, de outras pessoas - poucas é verdade, mas que estão aumentando a cada dia - que começaram a trilhar também essa estrada que escolhemos. Passamos então a sentir que a viagem não é tão solitária como pensávamos inicialmente. Nesse percurso, precisamos estar preparados para perdermos algumas coisas pelo meio do caminho. Sim, porque à medida que vamos caminhando, começamos a descobrir que temos de nos livrar de coisas que nos dificultam a jornada, ou porque são muito pesadas, ou porque são difíceis de carregar. Curiosamente, em outras situações descobrimos que algumas coisas que achávamos indispensáveis no início da viagem começam a se tornarem incômodas, ou desnecessárias, e é geralmente com grande alívio que chegamos à conclusão de que é hora de as deixarmos para trás. Começamos a modificar nossas concepções sobre o mundo e a vida, preferências, hábitos de diversão ou alimentação, maneiras de vestir. Em decorrência dessa transformação, passamos também a questionar a qualidade dos nossos relacionamentos. Mudou a família, ou
mudei eu?
Isto se dá porque o indivíduo que assume a visão holística como uma atitude diante da vida incorpora à sua prática diária a cooperação em vez da competição, a busca de valores espirituais em lugar dos valores materiais, formas mais saudáveis de estar no mundo, mudanças na alimentação, nas formas de compreender e trabalhar o stress. E vai certamente se distanciar daqueles que lhe cercam, que estão próximos a ele, mas que continuam a se comportar segundo os velhos modelos. Medo do novo
Imaginem que, quando finalmente João
consegue juntar aquela quantia que vai lhe permitir trocar o seu carro
pelo modelo mais novo e mais luxuoso, o seu melhor amigo simplesmente resolve
abdicar do seu moderno e bem equipado automóvel - que João
secretamente inveja - e passa a andar a pé, dizendo que além
de ser melhor para a saúde, polui menos e economiza combustível
fóssil! E o que vai acontecer com o encontro semanal na churrascaria
se alguém da turma diz que não come mais carne, que agora
é vegetariano? E quando aquele colega do birô ao lado não
ri mais das piadas de João sobre negros e homossexuais? E aquela
amiga de João, que larga uma carreira promissora numa grande empresa
química e poluidora, onde ganhava um excelente salário, e
vai cultivar plantas ornamentais numa granja afastada, baixando terrivelmente
- no entender de João - o seu padrão de vida?
Começam os choques
Quem está iniciando a viagem, então, deve estar preparado para choques nos relacionamentos, sobretudos os relacionamentos amorosos. Eles são os mais afetados e podem evoluir para melhor ou para pior mas nunca, nunca continuam os mesmos. E o viajante deve estar preparado também para exercitar sua capacidade de compreensão e ter sempre presente que o objetivo básico é a busca do nosso eu inteiro, da nossa completude, e não a derrota dos outros. Se pudermos conduzir também outras pessoas junto conosco, a nossa viagem ficará mais simples, fácil e agradável. Devemos ter presentes, no entanto, que essa busca é essencialmente individual e ninguém pode ser obrigado a ela, sem que tenha sentido emergir de dentro de si a necessidade de realizá-la. Até que a morte nos
separe
Como o andrógino d'O Banquete, de Platão, estamos sempre na busca desesperada da nossa outra metade. E quando pensamos tê-la encontrado, quando achamos que vamos ficar com ela "até que a morte nos separe" - mesmo que esse tremendo prazo nos aterrorize um pouco - a nossa metade resolve ir embora e lá estamos nós novamente partidos, fragmentados, chorando e cantando, como o poeta: "Ó pedaço de mim, ó metade arrancada de mim..." Começamos então a procurar um relacionamento que não nos deixe tão perdido ao acabar porque, descobrimos já não tão surpresos, os relacionamentos acabam. E então percebemos que só vamos conseguir uma relação rica, criativa e inteira, se formos inteiros também. O passo inicial é questionar toda a nossa prática afetiva anterior. Intrigados, nos assalta a incômoda impressão de que amamos errado até agora. Por exemplo: o que procuramos no outro? O amor ideal
O fato é que não existem qualidades femininas ou masculinas: existem qualidades humanas. Quando somos crianças, que demonstramos sentimentos, atitudes ou comportamentos considerados "pertencentes ao outro sexo", somos levados a reprimí-los. Não se considera correto que o menino seja meigo, ou que expresse suas emoções através do choro. A menina também é chamada à atenção quando demonstra um temperamento aventureiro, quando se põe a explorar o ambiente, a pular muros. Ao chegar à idade adulta, manifestamos apenas, homens e mulheres, uma parte das qualidades que temos. E começamos então a procurar as outras nas pessoas que encontramos. Ficamos apaixonados, e temos necessidade de "possuir" o "objeto" da nossa paixão. Queremos que ele fique o tempo inteiro ao nosso lado. Sem ele, nos sentimos vazios, incompletos. E daí vêm os sentimentos de posse, o ciúme. Quando a pessoa por quem estamos apaixonados se aproxima de outra, pensamos que vamos "perdê-la" mas o nosso medo real é de perdermos a nós mesmos, é de abrirmos mãos daquela nossa parte escondida, oculta, que projetamos no outro. Quanto mais incompletos somos, ou nos sentimos, mais ciumentos e mais possessivos nos mostramos. Na tentativa de nos completarmos, procuramos modificar nosso parceiro para que ele apresente qualidades que nos faltam, que ele às vezes não tem, e pelas quais ansiamos e ele, por ser também carente e incompleto, faz o nosso jogo e começa a aparentar qualidades que não possui. Desenvolvemos também uma capacidade impressionante de descobrir o que falta ao outro e tentamos assumir essas qualidades, mesmo que não as tenhamos. Ao olhos do nosso parceiro de paixão - ou de desventura? - passamos duplamente por quem não somos: uma vez sem saber, quando procuramos nele qualidades que temos, mas não sabemos que temos; e outra vez conscientemente, quando representamos qualidades que não temos para que ele, que precisa delas, as encontre em nós. Os ensinamentos da paixão
Com a paixão, aprendemos também o que está nos faltando: é só escrever, em qualquer ordem, ou da forma que vier à nossa mente, quais as coisas que desejamos num amante ideal. Faça isso agora. Quando terminar, você terá acabado de descrever o resto de si mesmo, e que só em si mesmo você poderá encontrar. Esse exercício aparentemente tolo é absolutamente revolucionário quando o fazemos com verdade. Ele é proposto por Gloria Steinem, no seu livro A revolução interior, onde ela discorre de maneira aprofundada sobre esse tema do relacionamento afetivo. À procura de nós
mesmos
Nesse novo contexto, o sexo passa a ser visto de forma diferente. Sim, porque para apreciar uma pessoa inteira, plena - um homem sensível e terno, uma mulher forte e decidida - precisaremos fugir aos comportamentos estereotipados que privilegiam o sexo em detrimento da intimidade, e que transformam a aventura amorosa em "conquista" fazendo-nos perder imediatamente o interesse pelo parceiro tão logo a conquista tenha sido bem sucedida. Uma vez inteiros e completos, estamos livres para nos relacionar à vontade com quaisquer pessoas, de preferência também inteiras, também completas. Teremos nos livrado da posse, do ciúme, do medo, da insegurança. E para nos mantermos fiéis a essas novas idéias, precisamos abrir mão da necessidade de exclusividade na relação, sendo essa talvez a mudança mais difícil pela qual temos de passar. O interessante a esse respeito é que, apesar de vivermos defendendo a monogamia e a fidelidade, transgredimos constantemente essas regras nos nossos relacionamentos. Não é isso o que interessa. Quem transgride as regras é apenas um transgressor. O que importa é não aceitar essas regras, e forjar outras. Esse sim, é um comportamento revolucionário, transformador. O maior bem da vida
A respeito do amor, Marilyn Ferguson comenta que "nosso conceito cultural das possibilidades do amor é tão limitado que não dispo-mos de um vocabulário apropriado para descrever as experiências holísticas de amor, o qual abrange sentimento, conhecimento e sensibilidade." Mas considera que a presença do amor é constante e indispensável nos relacionamentos transformadores, que "são caracterizados pela confiança. Os parceiros estão desarmados, sabendo que nenhum deles tirará vantagens. Cada um arrisca, explora, falha. Não há fingimentos, ou fachadas. Os parceiros cooperam. Deleitam-se com a capacidade do outro em surpreender. O relacionamento transformador apoia-se na segurança que emana do abandono da certeza absoluta." Quanto a mim, nada conheço sobre o amor que se compare à bela epístola de Paulo aos Coríntios, em um trecho que diz: "Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei." Nota: Este artigo é uma adaptação do capítulo 11 do livro Iniciação à Visão Holística, de Clotilde Tavares (Rio de Janeiro, Editora Record, 1996, 3a. edição), BIBLIOGRAFIA FERGUSON, Marilyn. A conspiração aquariana. Rio de Janeiro, Record, 1990. FRANCO, Augusto de. A nova geração: crise e reflorescimento. São Paulo, Thomé das Letras, 1990. 179 p. RUDHYAR, Dane. Preparações ocultas para uma nova era. São Paulo, Pensamento, 1991. 259 p. STEINEM, Gloria. A revolução interior: um livro de auto-estima. Rio de Janeiro, Objetivo, 1992. 291 p.
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