UMA CIVILIZAÇÃO DO AR E DO FOGO
Uma alegoria
 

Quando vou de carro de um lugar para o outro, e mergulho no vertiginoso e alucinado rio do trânsito, muitas vezes me pergunto porque é que as pessoas ficam tão diferentes quando estão na direção de um automóvel. Qual é o jogo? Qual é a relação que se estabelece entre o indivíduo e o carro, uma relação tão profunda, tão cheia de significados e com um poder tão grande de transformar o comportamento? E fui buscar, na simbologia dos Quatro Elementos - Terra, Água, Fogo e Ar - uma alegoria interessante. Vejamos. 

A sociedade agrícola e rural de duzentos anos atrás, baseada na Terra e na Água, transformou-se de forma brutal numa civilização do Ar e do Fogo. Os meios de transporte e comunicação, como andarilhos e cavaleiros (Terra) e vias fluviais e marítimas (Água), transformaram-se em automóveis, trens e aviões que, como o telefone, o rádio e a televisão, são filhos do Ar e do Fogo. 

Esses sofisticados meios de comunicação eletrônica se interpõem cada vez mais entre as pessoas, distanciando-as ao ponto de hoje elas não saberem mais estar juntas, tendo que contar com o auxílio de animadores, psicólogos e especialistas em dinâmica de grupo quando querem conviver. Nunca houve tanto acesso à comunicação (Ar) e nunca houve tanta solidão. 

Ora, a Água é o elemento da comunhão, da união, da mixagem, e os seus ritos e comportamentos, como o batismo, as abluções rituais, a hospitalidade e a convivência têm sido banidos da nossa vida. Perdemos completamente a conexão com Água. Isso se deu porque toda familiaridade autêntica com um elemento supõe uma dupla relação de Amor e de Risco. A nossa relação com a Água, no mundo de hoje, tornou-se insípida. 

Neste mundo em que vivemos, a Água das nascentes, das fontes e dos rios sagrados foi captada, domesticada, clorada e aprisionada nas torneiras e encanamentos. E não brincamos com a Água do nosso banho porque não há possibilidade de nos afogarmos no chuveiro. O Risco foi abolido, e a relação passou a ser funcional, higiênica, programada, até mesmo quando vamos à praia. Como ter esse tipo de relação com a Água numa praia apinhada, cheia de gente, bares e jet-skis? Numa situação dessas, será que vemos realmente o Mar? 

Mas quando estamos ao volante do nosso automóvel a coisa é diferente. Movidos pelo motor a explosão, símbolo máximo do Ar e do Fogo, entramos em relação direta com a Velocidade, que não é nada mais do que um triunfo do Ar sobre o peso, sobre a massa, sobre a Terra. E esta nossa relação com o Ar e com o Fogo, pela via da Velocidade, é cheia de temor, de prazer, de surpresas, de exaltação, de abandono e de combate. 

Nessa relação está presente o jogo, está presente o risco e só brincamos com a Velocidade porque podemos nos matar a qualquer momento. Aceleramos, cortamos pela direita, invadimos o espaço com a luz alta e com a buzina e estamos em busca de máquinas cada vez mais possantes. Esse Fogo da ação, esse Ar de chegar primeiro, de estar na frente, nos faz esquecer a Água da comunhão, a dimensão líquida que tudo mixa e unifica. Essa submissão à Velocidade nos faz esquecer de que somente através dessa comunhão com a Água conseguiremos viver a plenitude dos instantes eternos. Ao lado disso, a Terra nos fornece o espaço vital no qual plantamos nossas bases no mundo e nos ligados às energias primordiais da Natureza. 

Não se trata de abolir as conquistas da civilização urbano-industrial. Mas o reequilíbrio, o reencontro e a convivência harmônica dos quatro elementos é o que esperamos que aconteça antes que o mundo, entregue exclusivamente ao Ar e ao Fogo, se consuma e se destrua na devastação, no incêndio ou na explosão de uma hecatombe qualquer. 
 
 
 
 
 

 

 

clonews@digi.com.br